Do desejo e das delícias andróginas no teatro e na cultura popular brasileira: a(s) tese(s) de Ribamar Ribeiro d’Os Ciclomáticos Companhia de Teatro
Quanto maior a escuridão do entorno, mais os vaga-lumes brilham Arquivo vivo – O dossiê censurado como experiência performativa-documental d’Os Ciclomáticos Companhia de Teatro
A pesquisa parte da criação do espetáculo Quanto maior a escuridão do entorno, mais os vaga-lumes brilham, obra teatral construída a partir de documentos, relatos, arquivos, memórias e fabulações cênicas em torno de corpos LGBTQIAPN+ violentados, silenciados ou apagados durante e após o período autoritário.
As contextualidades ditatoriais em nossa sociedade são demonstradas e enfrentadas por inúmeras artistas, coletivos e pela Cia Os Ciclomáticos, tanto na perspectiva dos temas que aborda, como em sua forma de produção coletivo-colaborativa buscando diferentes formas teatrais para a elaboração de seus espetáculos: Narratividade, teatralidade, teatro documentário, performatividade, teatro épico, teatro de revista, Teatro Seminário(p. 43).
Gosto de lembrar dos escritos da pesquisadora colombiana Beatriz Rizk, ao categorizar o teatro novo e as formas populares teatrais:
O teatro novo, segundo Rizk (Rizk, 1987, p. 41) teve procedência eclética, influenciado pelo teatro épico que, por sua vez, recorria predominantemente à tradição popular, ao teatro da commedia dell’arte, ao teatro elisabetano, o teatro do Século de Ouro Espanhol e o teatro proletkult, influenciado pela Revolução Russa, presente na União Soviética através dos anos 1920 e sua contrapartida, o teatro agitprop na Alemanha. “Ambos os tipos de teatro desenvolveram formas de teatro de rua, do circo, do vaudeville, que corresponderiam aos chamados ‘jornais vivos’, em que se teatralizavam as notícias quase frescas, dando lugar para a improvisação e para o comentário”(Rizk, 1987, p. 41, tradução nossa). A autora abarca os nomes “[...] teatro de identidade, teatro revolucionário, teatro comprometido, teatro histórico ou teatro da violência, teatro de crítica social ou documental, teatro de vanguarda [...]” (Rizk, 1987, p. 19, tradução nossa) e afirma que de todas essas a que mais se aproxima da realidade é o teatro popular “[...] porque o Teatro Novo é basicamente teatro popular” (Rizk, 1987, p. 19, tradução nossa). A autora destaca ainda o apelo para “[...]uma nova relação com um novo público em condições novas de espaço de funcionamento organizacional e econômico. No que se refere à criação artística, seguiram-se as premissas épicas sobre o distanciamento crítico estabelecidas por Bertolt Brecht.”
Já a teatróloga portorriquenha Maria Bonilla Picado, considera, ao observar modos de organização de diferentes agrupamentos de teatro na América Latina, três aspectos relevantes: a criação de um movimento teatral, o desenvolvimento do ato teatral conformado pela unidade dos cinco elementos (autores, diretores, atores e atrizes, espaço cênico e público) e a preocupação pela escolha do repertório. (Picado, 1988). Esta contextualidade latinoamericana influenciou a produção brasileira, sobretudo a partir das décadas de 1950 e 1960.
Na pesquisa de Ribamar, a investigação se intensifica e se amplia em diálogo com Diana Taylor, dialogando com a obra O arquivo e o repertório: performance e memória cultural nas Américas (2013), na qual a autora propõe uma reflexão fundamental sobre os modos de transmissão da memória, distinguindo o arquivo, associado aos documentos, registros e vestígios materiais, do repertório, compreendido como o campo das práticas corporais, dos gestos, das performances, das oralidades e dos saberes incorporados. Nessa perspectiva, a pesquisa compreende que as memórias LGBTQIAPN+ atravessadas pela ditadura não se preservam apenas nos documentos oficiais, mas também nos corpos, nas presenças, nas narrativas interrompidas e nas teatralidades que resistem ao apagamento histórico. p. 35
Segundo Ribamar, às páginas 39: "E sim! Tem uma resposta para compreender por que desejei fazer esta pesquisa. Eu nasci no Brasil que estava sob o regime militar. Eu era um filho da ditadura e diversas formas, sem conscientemente saber, vivia os reflexos destes tempos nefastos. E de certa forma fui moldado na escola, com a ajuda da TV, para uma vida cordial, obediente e despolitizada."
E orientado pela professora Luciana Lyra, que traz o conceito de f(r)icção (p. 44) para esse expoente dos movimentos LGBTQIAPN+ que representa Ribamar Ribeiro e o grupo Os Ciclomáticos, fazendo parte das continuidades até a contemporaneidade das transformações ocorridas na concepção de dramaturgia teatral, forma de produção e diálogo com o público, desde o final do sec XIX nos palcos europeus e meados do séc XX no Brasil.
Ribamar afirma à página 93 que "O fio condutor não está calcado na dramaturgia[de texto], mas na experiência do espectador com a imagem, na poética da cena. O caráter performativo do espetáculo se evidencia na pele de quem o vivencia. Aplica-se, portanto, o conceito de dramaturgias plural, como aparece na página 247 ao mencionar a iluminação como forma de dramaturgia.
São ricos os experimentos relatados no capítulo 1, as experiências como carnavalesco e as elaborações dos termos performance teatral gay e teatro seminário, concebendo-os como atos políticos teatrais e possibilitam aprofundar estes conceitos do teatro documental e autoficcional.
“Ao iniciar a elaboração da dramaturgia, utilizo o teatro-seminário tanto no processo de escrita quanto na estruturação da cena. A metodologia tem início com a orientação do grupo para a realização de pesquisas livres em torno do tema a ser trabalhado. Essas pesquisas podem abranger diferentes fontes e materialidades, como textos biográficos, bibliográficos, documentos históricos, registros sonoros, imagens, entrevistas, arquivos audiovisuais e demais referências capazes de ampliar o contato dos participantes com o universo temático da obra. Dessa forma, todos os integrantes do processo são convidados a mergulhar no campo de investigação, não apenas como intérpretes, mas como sujeitos ativos da criação”. p. 278
Com todos esses atributos, Ribeiro e Lyra tecem importante documento performático, em consonância com a citação que trazem de Benjamin, à página 210:
"Nesse sentido, Benjamin define que ao historiador crítico cabe responder a esse chamado, ativando, no agora, as possibilidades não realizadas inscritas nas experiências dos vencidos. E nós artistas precisamos estar atrelados a este tempo, reconfigurando a história e trazendo outras perspectivas e camadas de olhares, buscar as vivencidades dentro da contemporaneidade. É nesse horizonte que nós, artistas, precisamos nos vincular radicalmente ao nosso tempo histórico, reconfigurando a narrativa do passado e fazendo emergir outras perspectivas, camadas de leitura e regimes de visibilidade. Ao mobilizar experiências e vivências situadas na contemporaneidade, a criação artística torna-se um espaço privilegiado de elaboração crítica, no qual se confrontam versões hegemônicas da história e se produzem novas formas de sensibilidade e de compreensão do presente."
Assim o trabalho se insere também como documento performático que efetiva a persistência de estratégias de enfrentamento que articulam arte, política e desejo.

Lindo texto!!!!
ResponderExcluirGratidão, Midian <3
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