Um gestus parado no ar

 

Foto Julia Lucatti - Efêmera Fotografia

Arguição ao Trabalho de Conclusão de Curso apresentado por Paulo Roberto Laass Wotckoski à Faculdade de Teatro, do Campus Santa Mônica de Uberlândia, da Universidade Federal de Uberlândia, como requisito parcial para obtenção do título de Licenciatura em Teatro.

Orientador: Prof. Dr. Luiz Humberto Martins Arantes



Um grito parado no ar


Moro no fim de um escuro corredor

Papel jornal fazendo as vezes de vidraça

Quarto mirim que só tem cheiro de bolor,

Eu vivo assim, em cada esquina uma ameaça.

Não peço nada, eu não quero me envolver,

Na rua nua em cada cara uma desgraça.

Há tanta gente procurando esquecer

Que a vida é à-toa, a morte chega e tudo passa.

Quem souber de alguma coisa

Venha logo me avisar

Sei que há um céu sobre esta chuva

E um grito parado no ar

A vida enfim é um escuro corredor

Leio jornal e muitas vezes acho graça

E quanto a mim, estou vivendo de favor

Não sou ruim embora viva de trapaça

Não peço nada, eu não quero me envolver

Até a lua tem as nuvens por mordaça

Assassinada mesmo antes de nascer

A esperança sobe aos céus como fumaça.

Quem souber de alguma coisa

Venha logo me avisar

Sei que há um céu sobre esta chuva

E um grito parado no ar




A pesquisa de Paulo trata-se de um memorial artístico da construção da cena “Um grito parado no ar”, a partir do texto de Gianfrancesco Guarnieri. Dessa forma, a pesquisa aborda a historicidade da cena, escrita em 1973 sob contexto de Ditadura Militar, a análise textual da dramaturgia e, consequentemente, o processo de concepção da cena à luz das ideias brechtianas. O autor explicita que  se verificou, no entanto, durante o processo de montagem, foi uma aproximação entre a censura durante aquele período histórico e a contemporaneidade, revelando questões sobre a instabilidade do fazer teatral.


Em primeiro lugar, gostaria de agradecer a oportunidade de participar dessa banca, em trabalho orientado pelo querido Professor Luiz Humberto, que tem sido um grande apoio em meu processo de adaptação nesse instituto, bem como a Professora Renata Kamla. Ambos demonstram-se extremamente sérios, dedicados e trata-se de uma honra atuar ao lado de pessoas que compreendem na prática cotidiana a importância da Universidade Pública para a contribuição na formação de pensamento em torno das artes cênicas e suas reverberações sociais.

Paulo, quero muito agradecer o convite e te dizer que é uma alegria compartilhar contigo das perspectivas do teatro de grupo como práxis política, no sentido do que diz respeito a todas, e do seu interesse pelas práxis brechtianas, um verdadeiro manancial crítico, epistemológico e metodológico. O conceito de gestus, tão pouco compreendido até o momento, seja por desconhecimento ou, como você bem observou, pela permanência do que se pode denominar culturas ditatoriais.

Importante que pesquisas como a sua prossigam em nível de mestrado e doutorado e que sejam amplamente divulgadas na universidade. Os processos de formação precisam necessariamente refletir seus contextos históricos, para evitar práticas inconsequentes e arbitrariamente possam cair no descrédito para com os processos de pesquisa nas universidades públicas. Assim, esse compromisso público é garantido pela sua abordagem, pela escolha do tema e do desenvolvimento em cena e reflexão.

O desenvolvimento e a aplicação do conceito de gestus no Brasil ainda requer muitas pesquisas e por isso gostaria de encorajá-lo a prosseguir nessa busca. Evidentemente essa etapa da história do teatro brasileiro que você traz à tona, ou seja, o processo de busca e criação da dramaturgia nacional, jamais pode se tornar o que poderia ter sido, não fosse a brusca interrupção pela ditadura civil-militar e seus processos coercitivos. Assim, a relevância de sua pesquisa é ampliada de modo significativo, demonstrando a pertinência e necessidade, sobretudo no âmbito universitário.

Tive a oportunidade de conhecer, através do seu trabalho, o importante relatório da COMISSÃO DA VERDADE DO TRIÂNGULO MINEIRO E ALTO PARANAÍBA, que traz os registros da  história da vereadora e advogada Ismene Mendes, apesar de seu desfecho trágico e

injusto, marcado e moldado pelo contexto em que ocorreu – o da Ditadura Civil-Militar no Brasil – tem, ainda que paradoxalmente, produzido frutos de justiça quase trinta anos depois.

Em 2013, o caso Ismene Mendes foi apresentado a um grupo, na época iniciante, de Direito e Arte, o grupo Artimanha, da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Uberlândia, pela Professora Neiva Flávia de Oliveira, docente da instituição, a qual narrou a história da advogada em um dos capítulos do presente livro.


No grupo havia componentes desta Subcomissão, que junto aos demais discentes do grupo de Direito e Arte, interessaram-se e se comoveram com o caso e, percebendo a distorção feita na memória e na história da advogada, decidiram construir uma peça de teatro contando a história de Ismene, com o intuito de, por meio da arte, denunciar toda a injustiça do caso.

A peça foi escrita pelos discentes da instituição e componentes do grupo Artimanha, Felippe Alves Ferreira Barbosa e José Renato Venâncio Rezende, recebendo o nome de “Ismênia”, tanto pela semelhança com o nome da advogada, quanto por traçar um paralelo com o mito da Antígona. A peça apresentava uma estória fi ctícia, não correspondendo na totalidade à história de Ismene, porém, mantendo sua essência e fatos principais.


O grupo Artimanha, desde a sua formação, pretendia, por meio da arte, transmitir e discutir o Direito para repensá-lo na academia e comunicá-lo à comunidade externa. Essa experiência já havia sido vivenciada algumas vezes em faculdades de Direito no Brasil e no exterior e também na própria Faculdade de Direito da UFU alguns anos antes, com o grupo de Direito e Arte Themis.


Porém, após a apresentação da peça “Ismênia”, o grupo Artimanha percebeu outro caráter desta relação do Direito com a Arte: o caráter de efetivar direitos.


“Ismênia”, ao ser apresentada, além de denunciar o caso de Ismene, transformou a forma como a advogada era lembrada. Em sua cidade, Patrocínio-MG, Ismene era conhecida como uma mulher indigna que havia se “auto-estuprado” e suicidado duplamente. Quando seu nome era digitado em sítios de pesquisa, quase nenhuma informação aparecia, a não ser a notícia que falava de seu auto-estupro e duplo suicídio. Tudo que se sabia sobre ela vinha das estórias contadas em sua cidade natal, fruto da mentira encrustada no imaginário popular: a mulher de reputação duvidosa que havia [se] suicidado. Porém, após a apresentação da peça, ao se digitar “Ismene Mendes” em sítios de pesquisa, já é possível ter acesso há várias páginas e notícias que questionam essa antiga “verdade” sobre sua história. Ainda que sutil e primariamente, a história de Ismene já começou a perder sua face moldada pela mão da Ditadura. Até mesmo em Patrocínio, a advogada imoral que tirou a própria vida começou a ser conhecida como a advogada que defendia e lutava pelo direito dos trabalhadores que foi assassinada por ameaçar homens de poder. Ao proporcionar essa outra visão da história por meio de sua estória, o teatro promoveu essa troca de lentes.



Ismênia, finalmente, morreu por antígona

Como pode ser frágil

Aquele que se permite morrer pelo outro?

Ismene morreu por nós;

Somos todos Antígona!

Pretos e pobres,

Mansos e braços,

Bravos e tristes,

Putas e mães.

A que muito sabe nunca se sentou à sombra

Ou sequer vergara aos grandes cafezais;

Preferia o café cooperado

Coado de mãos limpas e cheias de calos.

A que muito sabe foi traída por mãos pequeninas

Olhos de doce e fala inocente.

Foi levada aos chacais como quem colhe girassóis,

Como quem leva auxílio a quem está doente.

E não bastava iludir

Foi precisa força a sua boca abafar;

E não bastava o silêncio

Foi preciso soco para seu olho turvar;

E não bastava o escuro

Foram precisas patas a seu corpo pisotear;

E não bastavam cobardes

Foram precisas bestas para sua alma currar;

E não bastava o estupro

Foram precisas pedras a suas entranhas estripar;

E não bastava a tortura

Foi preciso abandono para seu ser se arrastar;

E não bastou a denúncia,

Pois a Lei não a quis ouvir.

E não bastou o descaso,

Pois o poder se mantém no mentir.

E não bastou a calúnia

Foi benzeno hexano para sua garganta queimar, seu olho arder, seu peito explodir, sua voz sufocar,

sua existência banir…Ismene Mendes morreu por nós;

Somos todos Antígona!

Pretos e pobres,

Mansos e braços,

Bravos e tristes,

Putas e mães.

A heroína não teve fi lhos;

De seu útero nasceu meu grito.


Guimarães Lobo*


E finalizando, parafraseando João Cabral e os gritos de galo que tecem uma teia tênue na qual cabem todas as pessoas, que esses gritos e esses gestus ecoem e possam seguir transformando o mundo.


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